Na Argélia dos anos 1930, o gato, apaixonado pela sensual filha do rabino, aprende a falar depois de comer um papagaio. E não para mais. A principal discussão é com o dono: o bichano quer converter-se ao judaísmo. O rabino então tem que consultar seu próprio rabino para descobrir se gatos podem converter-se ao judaísmo, o que gera aquelas longas discussões filosófico-teológicas próprias da religião hebraica, sem se render ao dogma.
O gato narra a conversa com o rabino do rabino:"Pergunto-lhe qual a diferença entre um humano e um gato. Ele me responde que Deus fez o homem à sua imagem. Peço-lhe que me mostre uma imagem de Deus. Ele me diz que Deus é uma palavra. Digo ao rabino do rabino que, se o homem é semelhante a Deus por saber falar, eu sou semelhante ao homem. Ele me diz que não. Porque minha palavra é má. Porque eu a adquiri num ato de morte. Digo-lhe que isso não é verdade, que não comi o papagaio. Ele me diz que, além disso, sou um mentiroso."
É uma pequena aula de lógica e religião que, comicamente, vem da boca de um gato - o qual, como é apropriado aos gatos, é ardiloso e resoluto em servir apenas seus próprios interesses.
A obra-prima que é o primeiro álbum foi seguida de outros quatro álbuns que progressivamente perdem o encanto - em especial porque o gato para de falar. É o mesmo problema que afeta a animação baseada nas HQs, da qual o próprio Sfar é codiretor e corroteirista.
Mais notável que esta estrutura bagunçada, porém, é a animação 2D simplista que perde o expressionismo do traço de Sfar - uma mão solta que faz o próprio visual dos personagens variar de acordo com as necessidades de cada cena, no caso da HQ. Já a animação é estilizada aos traços mínimos, parecendo um desenho animado genérico de TV dos anos 90, com aqueles movimentos onde parecem faltar células de transição.
(Deve-se reconhecer, contudo, a qualidade dos cenários e de tudo mais que é estático nas cenas, captando traços e cores da Argélia da época com riqueza de detalhes. Também são exceção as três sequências curtas no filme onde utilizam-se outros estilos de desenho, e que parecem ter mais a ver com a animação 2D contemporânea.)
A segunda metade do filme, que corresponde ao quinto álbum da série, é esta jornada a Jerusalém e ao que os personagens chamam de "África negra". É abertamente uma discussão sobre racismo, que conta com um irascível milionário russo ateu, o encontro mortal com um príncipe muçulmano e até uma crítica engraçadinha a Tintim e ao controverso Tintim no Congo. A discussão, porém, se alonga sem necessidade e o filme perde o tom.
Os dois primeiros álbuns da série foram publicados no Brasil pela editora Jorge Zahar. Valem mais a pena que o filme. O estúdio de animação que Sfar montou com os colegas Antoine Delesvaux e Clément Oubrerie, a Autochenille Production, agora está envolvido na adaptação de outra famosa HQ francesa, Aya de Yopougon (que já teve um volume lançado no Brasil). Melhor sorte na nova empreitada.

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