domingo, 21 de outubro de 2012

Zeca Baleiro - Nalgum Lugar

  
"Nalgum lugar em que eu nunca estive

Alegremente além
De qualquer experiência
Teus olhos tem o seu silêncio


No teu gesto mais frágil
Há coisas que me encerram
Ou que eu não ouso tocar
Porque estão demasiado perto


Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
Embora eu tenha me fechado como dedos
Nalgum lugar

Me abres sempre pétala por pétala

como a primavera abre
Tocando sutilmente, misteriosamente
A sua primeira rosa

Ou se quiseres me ver fechado

Eu e minha vida
Nos fecharemos belamente, de repente
Assim como o coração desta flor imagina
A neve cuidadosamente descendo em toda a parte


Nada que eu possa perceber neste universo
Iguala o poder de tua intensa fragilidade
Cuja textura
Compele-me com a cor de seus continentes
Restituindo a morte e o sempre
Cada vez que respirar

Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre

Só uma parte de mim compreende
Que a voz dos teus olhos
É mais profunda que todas as rosas
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas."

(Poema de E. E. Cumings, traduzido por Augusto de Campos, musicado por Zeca  Baleiro.)

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